o espírito da coisa


Mais dia

 

            Decidi dar por encerrado o ano e começar logo outro. Aqui, no íntimo, os dias já mudaram. Terão mudado, talvez, nas boas horas que passei na Terra, curando as bicheiras do Rapaz -aquele cachorro vadio- e olhando o açude encher depois de cada chuva. Já disseram que sou lento, talvez dê certo começar antes.

            Também decidi não me preocupar. Um sonho me avisou. Passei muito tempo com medo de não ser suficientemente engraçadinho e diplomático, preocupado em não ferir as susceptibilidades de alguém. Bom, às vezes posso não estar inspirado e dizer palavras inadequadas, mas o importante é que sejam sinceras e o resto se ajeita. De minha parte, também tenho engolido muito sapo e até agora nem morri por isso.

            E já não ligo se trezentos me amam e quatrocentos me odeiam, e nem uns nem outros pensam por um minuto no que digo. Resolvi não sofrer, só isso. Palavra é semente que o vento leva e ninguém sabe onde vai brotar. Muito aprendo com as samaúmas.

             De todo modo, não é bom a gente ficar se oferecendo. O melhor mesmo é ir passando, cumprimentando a todo mundo com um toque na aba, parando e tirando o chapéu quando encontra padre ou moça bonita. A vida é uma estrada, dizem, e ninguém sabe o que tem lá na frente. Tem gente que se convida ou fica reclamando por não ser convidado. Mas a mim, quem me merece? Eu mereço a estrada e tenho perna é pra andar.

            Não gosto de muita festa, mas também não sou de chorar desgraça. A essa altura da vida, já conheço minhas manias e mantenho algumas preferências. Não troco aquele livro velho, lido e relido e trelido, por certas novidades muito apresentadas e de pouco proveito. Não uso enfeite -nem corrente, nem anel- e o melhor relógio é o tempo. Gosto do tabaco preto, não muito velho e ainda molhento, o café forte e amargo, mas tomo de qualquer jeito. O que me dá gastura e desimpaciência é ver gente falando da vida alheia, não é bom pra minha saúde e procuro sair de perto. Tem gente que fala mal até de si mesmo, é uma doença triste.

            Os tempos são difíceis, mas são os que temos. Vez em quando tenho que pegar o pau pra me defender ou a algum inocente, mas não saio correndo atrás. Passa um ano, depois outro, a lança vai virando bastão e vou ficando mais retirado até que um dia só me vê quem procura. Mas demora, não é pra esse ano ainda não. Esse que, aliás, tou começando mais cedo porque tenho muita coisa pra fazer.

            Estou por aqui.


 

 



Escrito por Antonio Alves às 16h17
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Menos dia

A cidade e eu congestionados. Ela atulhada em compras de Papai Noel. Eu, indisposto e resfriado, esperando que o menino Jesus venha me remir. No ar, além das viroses, a chatice de sempre e a concentração habitual de umidade e política. Interesses e conveniências tornam insuportável o trânsito no Centro. Conversas corporativas e trabalhistas lotam as agências dos bancos, em intermináveis e lentas filas. Caixas eletrônicas emitem contracheques em ritmo pós-industrial, e as filas se transferem para as financiadoras de dinheiro fácil sem consulta ao serasa e o presidente diz comprem, comprem, comprem pois só o consumo nos salvará da crise. E eu espirro, olhando o céu para saber como estará o tempo nesta noite de antevéspera, calculando o tempo da caminhada e da fervura da água para o chá de gengibre e do sono na rede até que desapareçam as dores e um passarinho venha cantar no galho da goiabeira.

Um ano bom e difícil, este que termina. Números redondos da morte: 100 anos de Plácido, 20 de Chico Mendes, 10 de Zé Leite. Tivemos nossa cota de lembranças e cobranças. Nós, os vivos, os muito vivos e os nem tanto. A Bossa Nova fez 50, maio de meiaoito fez 40. Estão, estamos, todos velhos e alguns nem lembram mais de nada. O mundo está acabando, que pena, era um mundo interessante apesar dele mesmo e de nós. Talvez outro mundo seja possível, com redução das emissões de carbono, justiça social e muita vitamina C.

Mas já começou a chover de novo e aí, já viu, só dá pra fazer artesanato olhando na tv o povo brasileiro se mudar levando a cidade na cabeça.



Escrito por Antonio Alves às 15h37
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Como não guardar gigabytes

Perdi meu pendrive de 4 gigas, que usava desde o ano passado realizando o sonho que sonhei, maravilhado, desde a primeira vez que vi alguém portando essa maravilha, essa coisa linda que é um penduricalhozinho de nada, menor que um chaveiro, guardando miles e miles de palavras e números e imagens, coisa que me deixou imediatamente impressionado e ansioso por possuir e andar pra todo lado levando tamanho pequeno tesouro e, afinal, nem sei como o perdi, agora que não tenho um telefone com o qual me conectar à internet e estou tão mais dependente deste superarmazém de bites para enfiar, prazerosamente, nos buracos de usb dos computadores das lan houses, mas, enfim, simplesmente não o encontrei mais na bagunça de papéis e roupas e bolsos de mochilas e depois de algum tempo desisti e resolvi comprar outro e comprei, maior, de 8 gigas, capaz de guardar uma montanha de informação, embora minha mão coçasse no bolso enquanto meu olho não despregava daquele outro, de 16 gigas, um exagero, sem dúvida, onde se pode guardar um computador inteiro, uma coisa inimaginável que atiçou meus instintos mais primitivos, que só foram aquietados pela contenção financeira a que me ative pois calculei que, afinal, devia custar o dobro e deveria contentar-me com meia montanha desta vez, o que foi suficiente e me deixou deveras contente por alguns dias até que, ontem, dei pela falta de meu novo médio tesouro mas aquietei-me ao lembrar que o havia colocado no bolso daquela camisa que havia tirado e jogado sobre a mesa e que podia pegá-lo novamente mais tarde e, no entanto, agora estou muito desolado com o que fiz há poucas horas, quando me veio a idéia de lavar umas roupas e não me ocorreu de revistar-lhes os bolsos e lembro de ter colocado a tal camisa junto com outras num balde com água e sabão e amanhã, quando retornar ao local de tão descuidada ação, certamente constatarei que esta tecnologia moderna e maravilhosa não se pode pendurar numa corda, ao sol, para secar.

 



Escrito por Antonio Alves às 07h23
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taí

 



Escrito por Antonio Alves às 16h04
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