o espírito da coisa


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Perigos deste mundo

 

 

POLÍTICAS

            Um dia desses eu ia pra casa, caminhando despreocupadamente e, sem perceber, já ia passando entre duas políticas que se enfrentavam, uma de cada lado da estrada. Parei imediatamente e fiquei quieto, rezando para que não me vissem. Não tive medo de danos físicos -que isso só as políticas públicas podem causar-, essas políticas comuns de beira de estrada não são tão perigosas, mas podem causar enjôo, confusão mental e panema, um sujeito pode ficar enrascado durante muito tempo se for atingido pela ação de uma delas. De modo que fiquei ali, observando, enquanto elas se desafiavam e gastavam, uma com a outra, seus arsenais de maledicência e mau-olhado e inveja e todo tipo de reima.

            Fui salvo por um cachorro, que vinha abanando o rabo pela beira do caminho e, ao avistar as políticas, parou com os pelos eriçados e ficou latindo –não sei se bravo ou assustado. Uma das políticas voltou contra ele sua maldosa atenção, a outra se ocultou atrás de um arbusto um tempinho de nada, pouco mais que meio minuto, mas foi o tempo certo para eu passar, ligeiro e avexado. Subi a ladeira e respirei, aliviado, quando fiquei fora do alcance das duas peçonhas e também do cachorro, cuja índole eu desconhecia.

            Comprei uma baladeira do filho do vizinho e agora ando pela estrada com os olhos bem abertos. Se alguma política aparecer, meto-lhe uma pedrada bem no meio da testa.

 

 

AGENDAMENTOS

            Outra coisa triste é agendamento, é difícil que ocorra algum sem vítimas fatais. Ainda ontem aconteceu um terrível, coletivo, no centro da cidade, envolvendo várias agendas. Quando vi o alvoroço, a duas quadras de distância, tratei de cortar caminho pra não passar por perto. Evito agendamentos o máximo que posso, não possuo agenda e não pego emprestado de ninguém. Tem gente que bebe e depois sai agendando por aí, Deus me livre.

 

 

DEMANDAS

            Mas as criaturas mais perigosas são as demandas, inda mais porque sempre andam em bandos. Acho que é matilhas que se chama, quando são demandas de terra. Quando são demandas d’água, não lembro qual é o coletivo usado. Sei que são igualmente terríveis, deve-se ter o maior cuidado antes de atravessar um rio, pois pode estar infestado de demandas. As da terra, pelo que sei, podem estraçalhar uma pessoa descuidada. Só os grandes domadores conseguem ter controle sobre elas. Ainda assim, dizem que há freqüentes casos de demandas enlouquecidas que atacam seus próprios criadores.

            Mas a pior de todas é a demanda qualificada. Essa ataca sozinha, surge inesperadamente e salta no pescoço da vítima indefesa. Não há quem escape. Ainda bem que são raríssimas e não freqüentam casas pobres nem andam nas periferias, preferem os gabinetes dos grandes poderes. Parece que tem dificuldade de sobreviver em ambientes não climatizados.  



Escrito por Antonio Alves às 14h32
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i.

Que não nos ouçam

 

            Ainda essa coisa do horário. Vou insistir nesse assunto pra colocar uns pingos e pontos nos lugares certos. Começo com uma conversa mansa, assim como quem não quer nada, um papo de índio, mas depois chegarei às políticas. Acompanhem.

            No encontro indígena recentemente realizado na terra dos Puyanawa, a primeira desarrumação na programação oficial foi por causa do horário. O quinto Encontro de Cultura, que deveria ser importante, estava espremido e encaixado nos intervalos dos primeiros Jogos da Celebração. Tudo bem, afinal os jogos também fazem parte da Cultura, embora sem toda aquela estrutura mental olímpica e sem a organização industrial dos “cariús” (palavra kaxinawá para designar os não-índios). Vai daí que a coisa sempre acaba sendo do jeito que é pra ser.

Pra começar, a maioria das aldeias não aderiu à mudança no horário oficial e logo no primeiro dia os técnicos do governo tiveram que ficar uma hora esperando pelos atletas. Depois surgiram os contratempos naturais: chuva, calor, barriga cheia depois do almoço, sono depois de uma noite de pajelança, essas coisas. Ainda teve a costumeira epidemia de diarréia, o consumo exagerado do rapé, uma caiçuma muito fermentada e o alvoroço hormonal da juventude ali reunida. Resultado: o horário predominante ficou sendo o velho tempo amazônico que não tem medida nem nunca terá.

            O tempo no Aquiry “vareia” muito, mas dá pra observar alguns horários básicos, mais ou menos consensuais. Uma das possibilidades é dividir o dia em onze horas, a saber: manhãzinha, manhã, antes do almoço, almoço, depois do almoço, tarde, tardezinha, boca da noite, noite, tarde da noite e madrugada. Há duas vantagens nessa divisão: a primeira é a exatidão amazônica, que não sovina minutos nem regateia segundos, permitindo que as coisas sempre comecem na hora certa e ninguém chegue atrasado; a segunda é a facilidade para converter em outras convenções, a gosto do freguês, e até os mais formalistas podem ser atendidos, se fizerem questão de acertar seus relógios.  

            Assim sendo, quando fico insistindo no retorno ao horário antigo é que estou sacrificando minha coerência em favor de um debate interessante e, ainda por cima, tentando salvar um velho conhecido, o Estado acreano, tão mais amigo quanto menos assimilado pelo Estado brasileiro –este, incontestavelmente hostil em todas as épocas.

Por partes: a incoerência é porque eu deveria, na verdade, deixar de lado qualquer horário oficial, novo ou velho, e incentivar a vivência de outras temporalidades e a liberdade de inventar outros horários. Embora um horário oficial seja, em certa medida, necessário, o horário único é uma ditadura insuportável. É como o calendário oficial: serve para que os empregados recebam seus salários no dia certo e as crianças possam ter férias das escolas, mas tem pouca valia para a vida do corpo e do espírito. Para esta valem mais outros calendários –geralmente femininos: da lua, das águas, das árvores, das estrelas etc.   

Quanto ao Estado acreano, se mantivesse um funcionamento mais próximo aos ciclos naturais, poderia guardar um certo espírito de diferença em relação ao estado colonial brasileiro e, eventualmente, quem sabe, servir como apoio às lutas do povo. É exatamente o contrário do que dizem os propagandistas do novo horário, que pensam que a Revolução Acreana foi feita para anexar o Acre ao Brasil. Que nada, antes disso a Revolução criou um Estado Independente, uma pátria de lunáticos que o Estado brasileiro tratou logo de desarmar e dissolver. O novo horário –hora de Porto Velho, Cuiabá e Manaus- não é revolucionário nem autonomista; na verdade, fundamenta-se numa submissão ao poder central igual à do antigo Território Federal.

E os políticos que cavalgam o chamado “aparelho de Estado” nem percebem que estou lhes proporcionando a chance de restabelecerem sua comunicação, se é que algum dia a tiveram, com a história e a cultura verdadeira do povo verdadeiro (os mais atentos sabem que há plurais ocultos na sentença: histórias, culturas, povos). A única coisa que se exige é que tirem o sapato na entrada ou, ao menos, desçam do salto e não venham com suas mesquinharias eleitorais.

Estou bem na entrada, vendo como se comportam. Um deles veio querendo tirar sarrinho com a minha cara, respondi logo com um desaforo. Atirarei quantas pedras forem necessárias para manter os urubus afastados. E faço questão de não personalizar a briga. Por exemplo, não vou aproveitar o assunto pra fazer política contra o Senador Tião Viana, que foi o principal (não foi o único) responsável pela aprovação da desastrosa mudança de horário. O mandato do Tião no Senado é produtivo e útil em muitas outras questões, sua respeitabilidade é um patrimônio do povo que o elegeu, é algo a ser preservado. E além do mais, a eleição já passou e a próxima é daqui a dois anos. Quem quiser fazer seu joguinho eleitoral vai ter bastante tempo pra isso.

Sei que é difícil para os habitantes dessa terra politiqueira compreenderem que o governador (anterior, atual ou futuro), seja ele quem for, é apenas um peão no tabuleiro e que estamos lutando contra peças muito mais poderosas. Mas vamos começando assim, devagarinho, como se fosse uma conversa sobre o igarapé que passa na nossa aldeia ou, digamos, uma conversa sobre o tempo. Deixa que pensem que só estamos fazendo barulho.

Vocês acham que vai chover, por esses dias?



Escrito por Antonio Alves às 19h06
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Briga da hora

 

            Bem, aqui estou de volta à cidade depois de um Papo de Índio muitíssimo interessante, que não tardarei a contar. O encontro indígena foi na aldeia dos Puyanawa, em Mâncio Lima, uma vila já bastante urbanizada mas que teve a lucidez de não aceitar o tal horário novo, como está acontecendo, aliás, em várias outras aldeias e comunidades do Juruá.

Mas o mundo Terra e seus povos ficam pra depois, hoje quero só deixar um recadinho sobre o fuso horário. Leio no blog do Altino (sempre ele!) que o deputado federal Flaviano Melo, apoiado por outros parlamentares, está encaminhando a realização do referendo popular sobre a mudança sobre o assunto. O que impressiona é a desfaçatez de convocar o referendo para as próximas eleições. Daqui a dois anos!

Flaviano foi a favor do horário novo, enviou carta ao senador Tião Viana pedindo que este intercedesse junto ao presidente Lula para mudar o horário do Acre. Sérgio Petecão é outro que apoiou, animadamente, o projeto do Tião. Agora, que já sentiram a revolta de uma grande parcela do povo, estão tentando livrar a pele.

Imaginem a próxima eleição: duas vagas do Senado em disputa, uma concorrência insana pela cadeirinha federal que a oposição consegue fazer... e o povo vendo a questão do horário, depois de dois anos e meio, transformada em política partidária.

Não dá pra aceitar. Vou botar a banquinha na Esquina da Alegria. Não dá pra contar com a CUT, que promoveu uma consulta desorganizada em algumas escolas e nem divulgou o resultado. (Percebendo o repúdio da maioria ao novo horário, o Manoel, em um acesso de fúria peleguista, mandou jogar fora os papéis.) Mas talvez apareçam alguns sindicalistas independentes (ainda existem?) pra ajudar. Por onde anda aquele grupo de estudantes da UFAC? Vamos lá. Esperar pelos políticos é roubada.

Tenho certeza de que dá pra juntar milhares de assinaturas a favor de um referendo já, agora, imediatamente. Pra divulgar temos os blogs, porque na imprensinha oficial não sai nada mesmo. Pega a baladeira aí, menino. Bota palanqueta no bisaco, que vamo guerriá.



Escrito por Antonio Alves às 15h05
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(ora,)

Onde estávamos?

 

            Agora que acabou a refrega eleitoral, que tal voltarmos às coisas realmente importantes? Pois bem, vou começar a incomodar os mui dignos parlamentares federais acreanos para que convoquem logo o tal plebiscito sobre a mudança de horário. Acho que já deu pra perceber que o tal horário novo ainda não foi –nem vai ser- aceito por uma boa parte da população que, por acaso, talvez seja a maioria.

            Não me importo de decidir o assunto agora no verão sulista, inverno amazônico, quando o sol nasce mais cedo e o novo horário fica quase certo, ao mesmo tempo em que as férias escolares diminuem a revolta das crianças sonolentas e de seus pais. Será fácil lembrar a todos que em fevereiro e março, quando retornarem as aulas, as seis horas da manhã no novo horário voltam a estar mergulhadas na escuridão.

            Tem também a tradição, a cultura, a espiritualidade e outros fundamentos mais importantes nessa questão, aquelas coisas que o povo sabe e os políticos ignoram, os capitalistas desprezam e os doutores discordam. Não interessa. Façam, senhores, porque nós queremos e vocês tem que nos atender, mesmo sem nos entender.

            Ou teremos que apelar para o Cabide?

 

(Vou ali na Terra Poyanawa, assistir os jogos indígenas e o encontro de cultura. Quando voltar, se não tiver novidades, vou botar banquinha na Esquina da Alegria e começar a coletar assinaturas.)



Escrito por Antonio Alves às 00h23
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