o espírito da coisa


(primaveras)

por Mag

 

            Só por tua causa, neste dia em que ficas, assim digamos, tão mais adulta, retorno à página em branco e tento mais uma vez escutar o silencio que torna possível –se algo aprendi com Drummond- penetrar no reino das palavras. Não estou ainda pronto para a poesia, mesmo neste dia de primavera que na floresta devastada amanheceu e agora anoitece quente e esfumaçado, político e agitado, com mais bandeiras do que flores. Mas é a tua primavera, que há de ser mais bela em teu derredor, e nela brota teu dom, teu domínio, que desde tempos passados me desperta, me inquieta, me avexa, me sacode onde quer que eu esteja e em qualquer profundidade do sono. Então deixa-me dizer duas palavras antes de recolher-me à companhia noturna do barro e das folhas secas em que anseio encontrar, no ermo do mundo, a vontade de viver que desperdiças no asfalto da cidade louca.

            Faz-me falta essa lucidez que atiras, displicente, pela janela do carro. Como poderia eu te amar e te compreender, sendo ainda um menino bobo chegando do interior e trazendo a província nos gestos hesitantes, legítimo possuidor de uma burrice atávica e um medo animal que me obrigava a fugir do fogo e da luz e de qualquer brilho que não fosse da lua? Entretanto te amei e compreendi para sempre, naquele instante à entrada do Anfiteatro 9, quando percebi com encanto e espanto a existência de algo, alguém, no mundo, mais alta que a minha pretensão e maior que a minha timidez. Em todos esses anos estive ao teu lado (mil léguas ou nada), boquiaberto e calado, assentado sobre minha sombra enquanto davas voltas ao mundo: casavas e descasavas, engravidavas e parias, fazias e desfazias as malas, gargalhavas e choravas, rasgavas a carne do mundo e a tua própria com as garras da ironia. Eu, trêmulo, comia folhas e murmurava: como pode alguém ser assim, como pode alguém ser?

            Faz-me falta essa coragem que gastas, irresponsável, no mundo dos lobos. Passeias com elegância de moça bonita em meio às unhas e dentes, uivos e ganidos. Arrancam um pedaço do teu braço, olhas para o lado com um sorriso e comentas, prática e objetiva: estou mais leve, agora. Dá pra morrer de raiva vendo o desprezo com que chutas as mais caras ilusões do poder, esses ouvidos moucos que fazes às mais tentadoras propostas de comprar tua alma, como se a alma fosse só tua e pudesses gastá-la à vontade em deliciosas contradições, em pequenos luxos, como se houvesse mais prazer nas opiniões incômodas que na companhia do rei, como se uma taça de vinho tivesse o mesmo gosto em New York e Goiás, como se não tivessem os lobos o pleno direito de estar ocultos nas virtudes das grandes utopias.

            Agora que preparo no silêncio uma nova idade para minha fala, terei finalmente aprendido algo com teu ruído, tua música urbana, teu grito? Quisera poder trabalhar todos os dias enquanto as paredes são demolidas ao meu redor. Quisera compreender teu hedonismo estóico ou, sei lá, teu estoicismo hedonista. Encontrar doçura no fel, confrontar os fantasmas familiares, amar sem medo (ou com medo, foda-se!), afogar as mágoas, fazer valer mais um gosto do que cem mil réis, recusar as certezas fáceis, rir tanto da culpa quanto da auto-indulgência, manter o senso de justiça e não importar-se de estar acima e abaixo dela. Agora sei o quanto custa conseguir. O que entregas de graça, teu amor e tua amizade, é fácil ganhar. Mas merecer... Merecerei, mereceremos nós, os teus fãs? Será preciso acordar e viver. Viveremos, eu e o rabo do tatu.

            Mas, por hoje, viva tu!



Escrito por Antonio Alves às 20h24
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